Já pensaram da vantagem de olhar a vida, por um ângulo que não seja limitado pelas intempéries
do meio e da sociedade?
Por exemplo: O que estará olhando aquele gatinho, na displicência de quem não pensa no
amanhã e não tem porque preocupar-se? Ele fixou o olhar naquela porta entreaberta.
Vejamos: Uma porta entreaberta...aproximemo-nos e observemos.
A primeira vista sentimos um vago e mal definido conforto.
É um dormitório, onde tudo é silêncio, onde se ouve apenas a respiração de um casal,
na intimidade de uma noite que já vai a meio.
Não façamos barulho, estamos espiando, não com olhos devassos, queremos sentir o enlevo
em que parece estar entranhado no gato.
Ao fundo uma cadeira estofada que nos leva a pensar em conforto.
A cama cuja cabeceira está enfeitada com sugestivo quadro sensual, toma todo o meio do aposento.
O homem, de aparência jovem dorme. Sua companheira moça e bela lê, enquanto o sono não vem.
É um quadro digno de um Botticelli.
Queira Deus que possamos participar de um momento como esse, onde se vê segurança e conforto.
Sente-se ali a existência de confiança e harmonia.
Creio que em lares assim, poderemos sempre encontrar essa paz de espírito tão necessária para
levarmos de roldão os suores e adversidade da vida.
A jovem senhora apaga a luz.
O gato ronrona, muda de lado, se espreguiça, olha para o teto, como a dizer, vejam a vida
dos meus humanos, pelo mesmo angulo que vejo, não tem mistério, é tudo simples,
é só se aninhar no tempo, que é nosso amigo, e se deixar levar.
Só não se pode esquecer, que a confiança e a harmonia unida ao amor e o carinho, fazem a vida
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
O olhar do gato
Era tudo um sonho
Procurei suavizar a minha vida, indo de encontro ao meu mestre, Marabô o eremita.
Lá chegando, disse-lhe que estava muito assustado porque tinha tido um sonho muito
ruim sobre nós os humanos. Como se faz necessário para nós nessas ocasiões, passei
um café bem forte, pegamos nossos cachimbos e fomos sentar em nossa pedra preferida
a beira do rio. Daí fiz o meu relato.
Não sei o que acontece comigo, de repente me vejo vagando pelo espaço, olhando o mundo,
vejo-o lá embaixo, parece que estou muito distante. Não entendo, porque?
Sinto frio e fico desolado, pois tenho uma corda, ou um cabo preso a minha cintura, com uma
âncora presa na ponta, fixa na terra. Ouço vozes, cada orador fala em sua língua natural, não sinto haver tradutores, porém todos se entendem, falam em mudanças, em sociedades, em indivíduos, em nações, e renovação dos espíritos.
Sinto que diminuir a periculosidade dos homens, é uma das metas, mais uma vez sinto que são diversos idiomas, fico pasmo ao sentir que estou entendendo todos. Ao mesmo tempo fico com medo, pois sei que não deveria estar ali ouvindo essas conversas, não sei quem são as pessoas que falam, tenho em mente que são importantes. Ouço alguém falar que é primordial uma renovação total dos valores atuais, já que os homens estão dilapidando os bons propósitos. Alguém responde que a raça humana tem dez por cento de bons propósitos, noventa por cento de hipocrisia.
Uma outra voz, feminina e melodiosa, diz que não pode ser assim, que em algum lugar da terra, deve existir algum povo que se assemelha a eles. E por isso devem procurar primeiro esses seres antes de tomarem uma medida drástica. Uma outra voz, um pouco mais rouca, diz, que não pode e nem deve levar a sério o ser humano a procura da sublimação do espírito, que o homem tem senso de dever e de harmonia. Não existe nos homens serenidade, e que não sentem realmente o amor como ele deve ser. Outro ser diz que concorda, porque se algo diferente aparecer na terra, os homens irão primeiro tentar destruir, para depois analisar. Uma voz feminina se levanta, e completa, isto é o que os caracteriza, já viví na terra, eles costumam dizer, primeiro atire, mate se preciso for, depois pergunte quem é. Uma outra voz feminina, pergunta como um ser morto vai poder responder?
A voz anterior responde, é assim que eles agem, não querem respostas, eles querem afirmar, apenas afirmar que eles são. Uma voz masculina se faz ouvir, eles são o que? Outra voz responde, vou dar em detalhes rápido como eles atuam.
O homem à milênios, aprendeu a matar, sentiu o gosto da seiva que corre em suas veias, o que eles chamam de sangue. Se sentiram poderosos ao tirar o fluxo vital de seu semelhante, se consideram deuses (alguém interfere e diz;deuses da destruição), atravessam mares e ares, para ir a um outro posto da terra, dizimar seus semelhantes, tudo pelo amor a divindade morte.
Houve um rebuliço, diversas vozes se fizeram ouvir. Até que alguém com maior poder naquele conclave se fez ouvir (era uma voz suave, porém muito firme).
Faço uma proposta; Vamos então até esse planeta, não precisamos correr riscos, não vamos nos materializar. Estaremos entre eles, talvez, venham há nos surpreender. Sei que existem alguns povos que não são belicosos, amam a terra pelo que ela é. Amam a natureza que a envolve, e a consideram Mãe. Eles sabem que a terra os alimenta quando bem tratada.
Eles terão chances de mudar o mundo se forem à metade mais um terço de algum lugarejo
longe dos grandes centros, onde possamos ver nesse sitio paz e harmonia. Se não for assim,
só nos resta destruí-los, para que não contaminem o resto do universo.
Ouvi muitas vozes, e entendi que foram unânimes nessa sentença.
A voz feminina, melodiosa, ainda tentou aliviar o peso da sentença aos pobres humanos,
mas, uma voz masculina um pouco ríspida, perguntou-lhe, você já notou que as nações
que nós protegemos e demos o nosso aval se tornaram carrascos executores?
Veja por exemplo a América, retiramos o povo sofrido da Europa e colocamos em uma nova terra onde a liberdade seria a bandeira, a igualdade de todos os seres seria o ponto principal, o que aconteceu e acontece? Mudaram tudo hipocritamente. São agora os cavaleiros do apocalipse.
Israel, ahhh, esse povo hebreu, sofrido, enxovalhado por todos os outros povos, nosso querido povo. O que se tornou? Executores da morte. Era para ser uma nação nobre onde a tolerância e o respeito ao humano fosse o ponto principal. Mas não, esqueceram que foram escorraçados, esqueceram as lágrimas derramadas, esqueceram os seus filhos queimados e dilacerados durante séculos pelos intolerantes. Meus confrades, digo a palavra esqueceram, porque eles tem em mente a palavra vingança, querem lavar o chão com sangue de seus algozes. Só que eles não vão invadir os países que os fizeram sofrer, que os escorraçaram como cães leprosos, que usaram suas mulheres para
cenas ignóbeis e queimaram seus filhos. Eles estão se vingando em seus primos, que como eles
também sofreram e sofrem, são espoliados por todos os outros povos, eles também desejam
uma bandeira tremulando no mastro da história, e poderem dizer temos uma nação.
Meu povo, o povo que eu escolhi, porque fazem isso?
Uma voz grave responde, ao que penso ser o nr. Um.
Eles vão dizer fomos atacados pelos nossos primos irmãos, eles merecem o castigo.
A voz suave, responde, mas os fiz ganhar todos os conflitos, dei-lhes liberdade para agir e pensar.
Esqueceram que se tornaram senhores, respeitados e admirados. O que tinham que fazer quando o ultimo armistício após a ultima grande contenda foi assinado. Abrir um amplo dialago com seus rivais que ajoelhados pediam misericórdia, nada disso fizeram, o orgulho da vitoria os impulsionou a agirem como se fossem nazistas, sentindo o gozo abjeto do sangue a correr pelas suas bocas, se saciaram em dizimar as famílias de seus primos irmãos. Procuram a sua majestade o ódio, para insuflar em seus irmãos, que era, e é meritório por o tacão da bota no pescoço de seus primos.
E agora subjugam seus primos irmãos. Porque é politicamente correto. Criaram o terrorismo moderno, açularam e mataram ingleses quando estes tinham o domínio da palestina e eles queriam criar o seu estado. É uma pena, viraram verdugos. O que mais podemos dizer...
Fez-se novamente um alarido todos desejavam falar ao mesmo tempo, alguém gritou nesta babel,
no momento estávamos apenas analisando o lado ocidental da terra ainda não chegamos ao lado oriental. Outra voz se fez ouvir, o que interessa isso, a raça humana não difere por estar separada por fusos horários, a maldade, e a hipocrisia se fazem presente com toda sua força em qualquer ponto, talvez de um quadrante para o outro o requinte de torturar e matar seja mais sofisticado. Aplausos, todos ali estão querendo que a raça humana seja extinta. Em algum ponto da reunião ouvi uma voz quase que sumida (devia estar lá no fundo), dizer, não podemos nos precipitar ainda restam os inocentes.
A voz mais suave (porém mais forte), que deve pertencer ao ser mais importante desta reunião
se faz ouvir novamente, replicou, infelizmente não existe inocentes, todos sabem o que acontece, mas, não desejam expressar suas opiniões, porque não querem tomar parte em nenhum entrave.
São apenas seres extremamente egoístas, só pensam em si, portanto são merecedores de
Todos os males que vierem acontecer na terra. Novos aplausos, a assembléia foi dada como encerrada.
Senti um imenso pavor, como jamais havia sentindo neste mundo, pois não tenho idéia se essa metade mais um terço de pessoas de boa índole exista em algum lugar.
Pode até se dar que em determinado ponto da terra encontre-se até mais que um terço, mas no resto do mundo, nos grandes centros será muito difícil, encontrar essa metade. Senti que estamos à beira de virarmos Sodoma e Gomorra. Fomos julgados, seremos destruídos pelos nossos impulsos animalescos.
Suado e cansado, com frio e medo, senti um bem inefável quando me vi sobre a minha cama, envolto em me meus lençóis. Era tudo um sonho. E que sonho.
Marabô o eremita, olhou-me e disse, eis ai a sentença da raça humana decretada, e você teve
o privilegio de assistir ao julgamento. Enquanto isso não ocorre vamos jogar nossas linhas no rio
e ver se conseguimos pegar algum peixe. Olhei-o, e disse, antes quero lhe fazer uma pergunta, porque eu estava amarrado com aquele cabo e a âncora presa na terra? Marabô, deu um sorriso e disse, Abu-el-Moura, você deve ter bebido muita cerveja, não consegue discernir como você se vê na terra. Espírito ou matéria? Comecei a rir, e repliquei, claro que sei, ainda estou vivo, é por isso que a âncora me segurava na terra,
é ainda o meu lugar. Bom, disse Marabô, vamos pescar que estou com fome. Jogamos nossas linhas e
ficamos a espera...
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
A construção
Os homens que ali trabalhavam, o vai e vem pelas pranchas com o carrinhos
de mão, gritos e motejos dos peões. Notei que quase todos eram nordestinos.
Longe de seu torrão natal, vieram a cidade grande afim de conquista-la, mas
são de imediato engolfados.
Vieram com intenção de retornar ao seu rincão, levando o troféu da conquista,
porém isso não acontece. Com seus chapéus de palha, alguns descalços,
enfrentando sol e chuva, na árdua tarefa de dar a cidade encantada, mais um
belo arranha-céu. Eles trabalham, trabalham, sem um minuto de descanso.
Ganham pouco para o muito que fazem.
Procuro um deles, me parece ser o capataz, faço-lhe perguntas.
Muitos moram ali mesmo na construção, já que não teem condições de alugar
sequer um quarto.
Familia! Deus meu! É algo difícil de sustentar, vamos tentar.
Outras atividades, o que é isso? Me responde o capataz.
Ninguém sabe, não é bom nem falar.
O interessante é ainda poder rir, gracejar, brincar com os companheiros
de serviço pesado, como se fossem meninos de colégio.
Vamos esquecer tudo isso, vamos voltar ao trabalho! Tem-se muito o que fazer,
até o emboçar, e o prédio liberar.
Lá se vai o mestre de obras, apressado a gritar com seus homens.
Falo com um, falo com outro, até alguém se achegar, nesse momento outros mais
se aproximam, procuram saber o que eu quero, lhes explico que estou ali a
observar, um se destaca e pergunta, observar o que e porque?
Conto-lhes uma história, sinto que se apercebem, que quero deles falar, por letras
no papel e a eles imortalizar.
Gostam da idéia, um mais afoito e falante, começa a recitar o porque de ali
trabalhar. Ele olha para mim, diz: - moço tome nota, escreva ai nos seus "papés",
faz de conta que os anos passaram, e aqui voltei, venho caminhando com meu filho,
puxando-o pela mão, mostro a ele, que aqui trabalhei, que ajudei a construir esse
edifício viga por viga, tijolo sobre tijolo, andar sobre andar. Cada armação de ferro
colocada, cada pedrinha de concreto, cada tijolo assentado, cada dia de jornada
terminado eram milhares e milhares de gotas de suor que entranhavam no solo
de cada pavimento, eram como se fossem um selo por nós colocado, para mostrar que
aqui estivemos, que as pessoas que vieram morar aqui teriam orgulho de nosso arfar,
terminou ele -.
Olho para o homem, pergunto-lhe, como ele se sentiria se isso fosse verdade?
ele replica: - que uma parte é verdade, ele está ali na construção, o futuro que ele
almeja é justamente esse, de ter um filho e mostrar o que ele construiu, mesmo
sem usufruir daquele espaço, porém (continua ele), se o fizermos com amor, já
ganhamos a nossa medalha. Diga-me, quem irá tirar o meu trabalho que foi
concluído nesta construção? e o meu suor ali entranhado?
Já secou, mas a minha marca ficou.
Olho em seus olhos a marca da resignação, do herói anônimo, de uma alma que
possui a força de todos os deuses, que não precisa aparecer, apenas fazer.
Ele praticamente disse-me, sou simples como a vida, ou um dia de sol sem nuvens.
Fico extasiado e sem fala, bendigo aos céus por pertencer a esse povo.
Como é gostoso ser brioso e brasileiro.
Viva os peões de nosso país.
Brasil 500 anos de desigualdade
o Medo e a Peste, reúnem-se para deliberar o que fazer pelo Brasil.
Esta reunião foi ordenada pela sua Majestade a Morte.
A Miséria irmã da Fome adora os pobres, estava toda ouriçada com este conclave.
A Corrupção sobrinha da Miséria e da Fome, ama os políticos e os poderosos, também
estava em ebolição. O Medo e a Peste primos das outras, são especiais, adoram a
todos, os ricos e aos pobres, estavam felizes, aguardando boas novas, já estavam
imaginando grandes possibilidades de atacar o Brasil das desigualdades.
A Morte ordena que eles saiam pelo Brasil afora, em uma visita minuciosa, para fazerem
um reconhecimento da situação.
Após alguns dias de viagens pelo país, voltaram exultantes, o resultado da visita tinha
sido compensador.
A Fome se dizia realizada, pois estava mais que fortalecida com a atual situação.
A Miséria era só sorrisos, se sentia eufórica com o estado em que encontrou o país.
Fizeram um esboço do que viram, e aguardaram a analise que a Morte faria, esta
sem duvida alguma a real dignatária do apocalipse.
Passaram a fazer planos, para um ataque visceral e fulminante, e dar o que elas pensam
ser de direito a este lado do Atlantico.
Enquanto debatiam como seria a missão, bebericavam taças de sangue, neste interim
entra na sala o Medo, elas lhes oferecem uma taça de sangue, que ele prova, cospe
e reclama que o sangue está muito fraco, a Fome então o chama, e segreda-lhe que
a Morte tem um objetivo espetacular, e que ele será seu principal agente.
Ela lhe explica que o Brasil por excelência é o lugar que ela mais deseja para regar
a terra com muito sangue, do mesmo modo que ela faz com a África e o Oriente Médio.
Aqui é o momento de desenvolver essa maravilhosa catástrofe, pois a desigualdade
e a injustiça social estão completando quinhentos anos, é uma grande tentação
deixar passar metade de um milênio sem algum evento de vulto.
O Medo fica abismado com a possibilidade de uma orgia monumental, e fala com a
Fome: - vamos convocar esse povinho que se faz de medíocre, que nada reclama,
e se sente feliz com seus opressores, que gosta de sofrer, porque assim lhes foi
ensinado nestes quinhentos anos. - O Medo solta uma estrondosa gargalhada, se diz
feliz por saber que tudo isso foi patrocinado pela igreja e os maus políticos, por fazerem
crer ao povo que é da vontade de Deus. A Fome lhe responde - quem sabe se com
a nossa ajuda, mudem o modo de pensar e de verem a própria existência.
Temos os sem-terra, sem-teto, sem-trabalho, sem-camisa, sem-dignidade,
sem-esperanças, e por ai vai, uma infinidade de sem´s.
Temos os políticos e os poderosos, que nada querem dividir ou perder. Queremos
o sangue de todos. A Fome continua, a Morte pede que você se afaste dos sem´s,
passe para o lado dos políticos e poderosos, justamente porque quem vive sofrendo
uma infinidade de injustiças, necessidades e amarguras, não precisa de você,
amigo Medo, esses são apadrinhados da Morte.
Quem está com a Miséria, a Fome, e a Morte por perto, tudo pode, até derrubar
sistemas corruptos e nefasto a nação. - Vejo este país (continua a Fome), dilapidado
encontrar uma saída , e nos beneficiar. Teremos que agitar o sem´s em grande
escala, já os vejo invadindo prédios de luxo e mansões, fazendas, casas de ministros,
senadores, deputados, os apartamentos luxuosos da classe A, e nessa miscelânia,
misturado aos sem´s, os atuais milicianos dos grandes centros urbanos, os traficantes,
e seus soldados, com armamentos de ultima geração, gritando que devido as
ciurcunstancias são obrigados a vender drogas e negociar com o terror.
Nesta grande eclosão, o povo das favelas e periferia percorrendo as ruas vociferando
palavras de ordem, todos sabedores que a atual situação foi gerada pela inércia e
conveniência dos políticos. Os militares também se levantam, pois sofrem com a
baixeza moral em que vivem, saem as ruas, são filhos dessa nação, também tem
o direito de reivindicar o quinhão desse bolo que está sendo esfarelado. Eles gritam
que vivem de braços dados com a Miséria e a Fome.
Como um aparato de laboratório da Morte o fogo esparge suas chamas pelas cidades e
campos queimando tudo pela sua passagem.
A água em sua furia por ter sido represada por muito tempo, desce num caudal levando
tudo que está a sua frente, o ar poluído, envolvendo tudo e a todos sufoca.
A Morte feliz, reúne-se em torno de suas acólitas, procura saber por onde anda o Medo
que não está presente para a celebração deste grande acontecimento.
Lhe informaram que ele estava nas ruas com sua prima Peste banqueteando-se, ela
então levanta-se e grita: - vamos para as ruas, pois hoje é o nosso dia de glória,
vamos beber o sangue gordo dos poderosos que o Medo ajudou a ceifar, vamos deixar
o sangue fraco dos pobres a correr pelos ralos das ruas.
A Morte em voz forte e cavernosa, diz: - é uma tragédia necessária para afastar a
desigualdade e a injustiça.
Nesse instante a Fome, magrinha como só ela pode ser, olha para Morte e replica:
- você acabou de falar em desigualdade, e está demonstrando que ela vai existir
sempre, pois você quer beber o sangue forte dos poderosos, e deixar o dos pobres
correr pela sarjeta, isso é uma injustiça, sangue é e será sempre sangue -.
A Morte olha de esguelha para a Fome, e lhe responde: - faça o que desejar, mas,
não esqueça que diferenças sempre irão existir -. A Fome sai rápida para as ruas
a procura de seus despojos, e lembra-se que nesta refregra ainda existem os inocentes,
alguns são poderosos, mas não são inocentes apenas se eximiram de tomar uma
atitude, queriam usufruir o que pudessem tirar da vida. Vamos lhes dar a paga que
merecem pensa a Fome, vão receber de tudo, talvez um pouco mais do que os
pecadores. E porque não? eles tem o sangue forte da ausência, não queriam se
contaminar, tomando partido sobre coisa alguma.
É a sublimação de uma revolução que deveria ter acontecido no século XX,
porém nunca é tarde para fazer fludificar na sarjeta um rio de sangue.
Brasil 500 anos de dor, sangue, angustia, corrupção, medo, miséria e fome.
A Morte em sua voracidade igualou a todos nessa bacanal de sangue e dor, foi a
grande apoteose do século XXI.
sábado, 25 de agosto de 2007
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Um belo dia, minha garota fez com que eu tivesse conhecimento.
Explicarei porque me era desconhecida.
Como filho único, nunca me dei ao trabalho de olhar para os lados.
Digamos que o que era meu, era somente meu. Porém, a minha
menina fez-me vislumbrar uma outra parte, da qual eu andava ausente.
O sentimento de posse era muito forte. Ela de diversos modos me fazia
ver quanto eu estava errado. Dizia-me ela, só temos posse de nosso corpo
e mente, o restante são componentes de um cenário do qual estamos
participando. Justamente por esse motivo devemos compartilhar.
Dividir nossas posses, dividir nossas ilusões, dar aos outros apoio quando
necessário. Imaginar que um dia nos será requisitado o que temos e neste
momento deveremos ser magnânimos. Como dizia minha menina, nada temos,
nada é tão importante no campo material.
Apenas o amor ao próximo é digno de nota.
Quem nada tem, nada pode dividir, mas, tem o coração. Com esse imenso poder
do coração, quantas coisas podemos dividir, desde a tristeza, até a alegria de
viver, de distribuir sorrisos e amor por onde passar.
Ou seja compartilhar o cerne da vida. Jesus Cristo nos mostrou isso.
Deu a todos o que podia, inclusive a dor que ele sentiu no momento de sua morte.
Ela foi compartilhada por toda humanidade.
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Saquarema
e alguns acontecimento de vulto na Região dos Lagos.
Vejo em determinada página de um jornal um sumário indicando as localidades
e datas das realizações, fico pasmo, todas as cidades da Região dos Lagos estão
ali relacionadas, falta apenas uma, Saquarema.
Estou no momento em Cabo-frio, me dirijo a um senhor que está a porta de uma loja,
com um livro na mão. Pergunto-lhe se sabe alguma coisa referente a Saquarema.
Ele prontamente responde, que esse lugar não existe, pois os políticos dessa
localidade dilapidaram o que poderia existir de melhor por lá. Fiquei surpreso com
essa resposta. Tentei interpela-lo, porém pediu que eu o ouvisse. Foi mais longe,
disse ter tido uma loja naquele sítio, porém foi obrigado a sair, pois nada acontecia.
Todas as vezes que pessoas de bem procuraram dar um impulso maior a cidade,
os políticos queriam dinheiro não mão para permitir qualquer acontecimento.
A prova maior é que todas as empresas de vulto que por ali aportaram saíram
fugidas da sanha pedradora dos sanguessugas. Que não era necessário fazer um rol
dessas empresas que todos conhecem. Ele continuou, basta dizer que não registraram
a coitada da cidade como um dos pontos turísticos da região, e o pior de tudo amarram
o povo em currais eleitorais. Na época das eleições, os candidatos fazem uma verdadeira
maratona, é uma espécie de brincadeira, ¨barata voa¨, ou seja voa telhas e tijolos,
e mais algumas coisas. O candidato que se propuser a dar mais telhas, tijolos, canos,
sacos de cimento, e por ai vai... certamente receberá o diploma de Edil.
Não sei quem é o pior, se os candidatos na ânsia de se elegerem, ou o povo na ambição
de receberem suas dádivas. De qualquer modo, sentimos que um se habituou a tirar
tudo que puder do outro. Vivi ali 35 anos, e vi esses anos passarem de forma triste
para a cidade. Mas o que podemos fazer? O povo recebeu uma educação diversa dos
outros cidadãos das outras cidades. Depois de eleito, os vereadores querem tirar tudo
dos cofres públicos, por que eles investiram em telhas, tijolos, cimento, canos, etc... etc...
e o povo nada pode dizer por que venderam seu voto, ou melhor sua alma.
Pobre Saquarema, ela ainda aparece algumas vezes no noticiário jornalístico, quando
pegam algum bandido de cunho internacional, ou quando se esquecem que ela deve
permanecer no ostracismo, e organizam um campeonato de Surfe.
Meu amigo basta dizer que o circuito de Moto-Cross também saiu. O que mais você
pode pensar de um descalabro dessa natureza?
Veja, Araruama, Iguaba, São Pedro, Buzios e aqui Cabo-Frio, e assim por diante, todas
as cidades da região, tem uma plêiade de peso trabalhando em prol delas, querendo cada
uma mostrar que é melhor e mais bonita, que seu povo é inteligente e procura a cultura,
as artes como qualquer povo civilizado, agora Saquarema meu amigo, o senhor me
desculpe, saia de lá, não vai lhe fazer mal algum, e o senhor ainda vai ganhar.
E por fim a festa do Círio de Nossa Senhora de Nazareth, o segundo em importância
do país, transformado em uma feira de quinquilharias, como se a fé tivesse expirado
sua tristeza em decorrência da materialização.
Fiquei a cismar com essas atrozes palavras sobre a minha cidade, sim minha, porque
escolhi viver nela. Ainda tenho esperanças que um dia poderei vê-la com toda pompa
que lhe é devida. Aqui estou há duas décadas. Acho a cidade majestosa, tem lugares
que é uma verdadeira poesia. Por exemplo: perto da ponte do Jirau, aquela esplanada
de onde você pode descortinar todos os quadrantes. Ali naquele posto o raiar do dia é
uma coisa sublime, olhando-se em direção ao morro da Cruz, ver o sol levantando-se,
ou então o poente em direção a Barra Nova. O mirante do morro da Cruz, de lá,
seja ao por do sol ou em noite de lua cheia, é sempre extasiante.
Para nos deleitarmos com uma visão especial, vamo-nos transportar a praia de Itauna
em noite de lua cheia, essa se erguendo como se saísse do mar, esse em sua homenagem
ficando prateado, como uma estrada de luz, evocando passarelas de anjos descendo
do céu para nos abençoar. A praia da Vila no verão, regurgitando de gente, com alegria
estampada no rosto, o por do sol, a cerveja gelada, o peixe frito aromático.
Para finalizar, com a mais bela visão de todas, a igreja de Nossa Senhora de Nazareth,
erguida em 1630,(os portugueses sabiam escolher os observatórios), dali podemos
descortinar uma paisagem invejável, é tão linda, que só palavras não bastam para
descrevê-la, é preciso vê-la e ao mesmo tempo senti-la.
Meu Deus temos tudo, só nos falta o senso ético de nossos políticos e povo, para sermos
a mais aprazível cidade da Região dos Lagos.
Viva Saquarema, viva a minha cidade.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
A esperança é uma passarela
A caminho de casa olhando a paisagem que desfila diante de meus olhos,
vejo as luzes dos outros carros que cruzam por nós.
No ônibus em que viajo, a maior parte dos passageiros conversam,
outros lêem, alguns preferem dormitar. Eu escrevo. Porque?
Para que? A quem eu escrevo? Não sei, e nem saberei dizer.
Volto a escrever, o ônibus sacode, a caneta corta o papel qual uma
navalha rompendo a pele de alguém. Assustou-me com esse pensamento.
Volto a olhar para fora, a janela está aberta, sinto o vento silvar
nos meus ouvidos, sinto o vento dizer-me quão pequeno eu sou.
Paro de escrever e medito. Pergunto-me porque isso? Sou feliz ou infeliz?
Triste ou alegre? Também não sei dizer. Retorno a escrever. Olho para o céu,
vejo as estrelas tão miudinhas, tão longínquas. Pergunto-me novamente
porque isso? -É uma infinidade de questionamento.
Meu espírito é forte ou fraco? Saberei enfrentar a vida com dignidade?
Fracassarei no que comecei ou conseguirei transpor os obstáculos?
Medo! Não, não o sinto, ao contrario, sinto uma calma infinita, como se
alguém superior esteja velando os meus passos. Tenho sono, sinto uma moleza,
mas não é cansaço. Sinto um langor extremo, quero dormir. Sinto que se eu
dormir, quando acordar estarei melhor, e tudo que faz parte da minha vida
também. Tento analisar esta situação, mas não sei como fazer.
Não tento comparar-me a outra pessoa, porque sou homem, e um homem não pode
ser comparado, sou um indivíduo (como dizia meu avô), sou único.
Sei que existem muitas idéias que estão que estão em acordo e desacordo
com o ambiente em que vivo. Regras tenho que seguir por dever a Deus e a
sociedade.
Sinto que dormi, mas, não entendo, vejo que rabisquei uma centena de palavras.
Enfim, volto a olhar para fora do carro em movimento, olho o meu reflexo
mo vidro da janela, algo me diz que agora irei compreender o que está
acontecendo.
Descobri que alguém acredita em mim.
Eu pelo meu lado da mesma forma, acredito em outro ser vivente como eu.
Depositei fé e esperança, e isto nos da uma força imensurável.
Não podemos ser uma ilha cercada de gente por todos os lados, sem ter uma
embarcação ou uma ponte que nos leve para o outro lado.
Esse outro lado é o amor, bendito amor, que nos leva acreditar que a vida
é bela. Que a esperança é uma passarela que atravessamos tendo fé.